Levadas, (in)segurança, gestão (do risco), incúria

Esta semana e por um lamentável motivo o turismo na Madeira voltou a estar nas ‘bocas do mundo’ devido a um fatal acidente ocorrido num dos percursos pedestres existentes na ilha. Este assunto não é novo naquele lugar, mas também não é característico dali. Há relatos de acidentes em muitos locais turísticos no globo cujo nicho de mercado é a natureza. Porém, o que me espanta é a incúria com que se gere ou não estes assuntos.

Sabe-se que o turismo é a principal indústria na Madeira, dele muitos dependem. Além fronteiras, muitos ouvem falar nas suas paisagens, na Floresta Laurissilva, Património mundial da UNESCO. Um dos principais, senão o principal produto turístico, são os passeios a pé nas levadas e veredas.

Iniciei o meu trabalho doutoral em 2008 e cedo percebi que a questão da segurança era importante para qualquer destino turístico na medida em que pode condicionar ou não a sua maturação, a sua permanência no seio de uma indústria, global, activa e muito competitiva. Li e registei algumas notas acerca deste assunto, contudo, pensei que quase 6 anos volvidos, e após ter concluído o meu trabalho doutoral sobre as levadas da ilha da Madeira, que a situação estivesse melhor.

Há um conjunto de factores que, juntos, contribuem para que as caminhadas na Madeira sejam inseguras: a humidade que torna o chão demasiado escorregadio; o descuido do caminhante; a falta de experiência de alguns caminhantes; a confiança em demasia de alguns sujeitos perante o terreno; o desnível do terreno; a abrupta mudança climatérica, à qual estamos sujeitos quando andamos na montanha; a falta de avisos – sinaléctica, nalguns locais, em especial fora dos percursos recomendados pelas autoridades oficiais; a vegetação abundante nalguns trechos; etc…..

Os acidentes acontecem por descuido (assisti muitas vezes no terreno a situações verdadeiramente inacreditáveis, desde turistas a ‘fazerem’ uma levada de havaianas, ou a escorregarem no trilho porque a fotografia teria de ficar mais perfeita que a dos outros, etc), por falta de informação adequada (é nas recepções dos hotéis que acontecem situações que mereciam outros cuidados, como por exemplo, recomendarem um percurso de horas a pessoas com mobilidade reduzida, ou percursos extenuantes, difíceis a famílias com crianças, tudo por desconhecimento do terreno, dos percursos, da sua durabilidade e acima de tudo, das suas condições de segurança no momento), por desvios (muitos atrevem-se a ir mais além do percurso recomendado. Exemplo: passar além das barreiras de segurança após um deslizamento de terras), por excesso de informação (quero com isto dizer que existem muitas publicações disponíveis cujos dados são erróneos, com informações que deixam muito a desejar, com falta de rigor).

Face a este panorama o que fazer? Como actuar quando sabemos que mesmo apesar de existirem percursos recomendados há inúmeros turistas que preferem fugir para levadas menos concorridas (isto lervar-nos-ia a outra discussão), sem saber quais as suas reais condições de segurança? Como actuar quando sabemos que há publicações que nas suas dezenas de páginas publicitam percursos, a maioria não recomendados, sem haver cruzamento de informações que permitam ao visitante saber quais as condições dos trilhos? Como actuar quando há evidencias de visitantes preferirem caminhar nas levadas por sua conta e risco? Como actuar quando sabemos que nem sempre os visitantes iniciam as caminhadas às melhores horas (a meio da tarde quando o percurso prevê o seu terminus já de noite)? Como actuar quando sabemos que na montanha o tempo muda rapidamente podendo desorientar visitantes menos experientes? Como actuar perante tanto interesse no seio do sistema turístico regional? Como actuar face a tamanha desinformação que pauta o turismo regional?

Há formas de se contornarem estas situações, todavia, não há nenhum modelo perfeito. O meu trabalho de campo prolongado denuncia estas e muitas outras situações, situações essas que não podem continuar a existir num destino centenário. Para isso, eu proponho uma mudança na gestão do destino, começando pela implementação de um conjunto de medidas que permitirão a médio/longo prazo evitar situações destas. Pena é que não se oiçam os académicos!

 

One thought on “Levadas, (in)segurança, gestão (do risco), incúria

  1. Pingback: (In)segurança, incúria e imagem das levadas | Filipa Fernandes

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