O turismo e a mercantilização do lugar: O Rabaçal

A rubrica de hoje acerca dos imaginários turísticos prende-se com a relação entre o turismo e a mercantilização do lugar. Uma vez mais a minha análise centrar-se-á no meu terreno de doutoramento, a ilha da Madeira.

Autores: Filipa Fernandes/Nuno Fernandes, Agosto 2010

A mercantilização do lugar é um elemento central do desenvolvimento turístico, assim sendo Britton sugere que “certain places and sites (with their landscapes, social practices, buildings, residentes, symbols and meaning) achieve the status of tourist sights because of their physical, social, cultural – and commercial – attributes (Britton 1991:462).

Na ilha da Madeira, a relação entre o turismo e a mercantilização do lugar cedo se fez notar, com a (re) produção e consumo dos ‘lugares turísticos’.

O final do século XIX marca o início da era dourada do turismo, traduzida numa indústria emergente e potenciada pelos circuitos de navegação atlânticos.

Os elementos naturais sempre foram considerados uma das grandes atracções do turismo regional. O seu valor está demonstrado em inúmeros registos escritos (literatura de viagem, materiais visuais, panfletos propagandísticos, etc.) que expressam os seus primeiros usos associados ao lazer e ao sightseeing.
Veja-se por exemplo os dois excertos seguintes:

“The view of the [Rabaçal] valley from immediately above the houses is grand beyond all description” (Rendell, 1881:67).

“The view from the levada [Rabaçal], over which the mass of water forms a graceful arch as it descends into the ravine beneath, is grand and imposing. The water-course, which is looked upon as one of the greatest island works of modern times” (White, 1851:164).

O conceito de lugar diz respeito a questões relacionadas com a cultura, mobilidade e o espaço. O lugar é uma construção simbólica do espaço. Como evidenciado por Shaw e Williams, os lugares «are constantly changing over time, through both their internal dynamics and the manner in which these interact with external and increasingly globalized processes of change” (2004: 187). Deste modo, não existem como tal, sendo construídos activamente pelos processos sociais, incluindo-se aqui o turismo.

Autoria: Filipa Fernandes, Agosto 2009.

Um exemplo é o vale do Rabaçal, sujeito a visitas desde metade do século XIX. Com o advento das obras para a construção das levadas do Rabaçal, para o transporte de água para a irrigação, as visitas estivais intensificam-se. Com o avançar dos anos o Rabaçal tornou-se numa ‘mercadoria’, sendo vendido como imagem na promoção da Madeira. As cenas capturadas em várias visitas inscrevem-se nas memórias turísticas, nos imaginários turísticos, assinaladas múltiplas vezes na literatura de viagem. O ritual do sightseeing expunha os riscos da viagem, a descoberta da natureza, da paisagem, por consequência, imortalizava-se numa fotografia, num desenho, ou numa descrição etnográfica. O efémero, a simulação da realidade torna-se ‘autêntica’. Como Santana sugere “o sujeito do olhar, o turista-actor, apreende a imagem como parte do ‘natural’ e como um objecto da cultura que visita (…) num exercício de codificação e interpretação desde o seu modo de vida e cultura de origem, mediado pelo sistema turístico” (1993:193).

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