Levadas da Madeira: um recurso/produto exclusivo da ilha da Madeira?

Nesta minha aventura relacionada com o trabalho de Doutoramento que estou a desenvolver deparei-me com novos dados, novos factos, algo inerente a qualquer trabalho de investigação. Ao longo do percurso de quase três anos, muitas foram as questões que me coloquei, outros questionaram-me sobre este objecto de estudo. Hoje deixo aqui uma breve reflexão acerca da exclusividade deste recurso/produto madeirense.

Já escrevi anteriormente que este elemento patrimonial madeirense (as levadas), é usado simultaneamente pela população local nas suas práticas de regadio diárias, e pelos turistas na contemplação e fruição da paisagem, do património. Até aqui nada de novo, pelo menos neste espaço geográfico. Porém, registos etnográficos localizam outros sistemas de regadio (tradicionais) noutros pontos do globo, alguns dos quais mesmo no espaço europeu. Portanto, os sistemas de regadio não são exclusivos da ilha da Madeira. Resultam da necessidade de irrigar campos agrícolas, de transportar a água de regadio de um ponto A para um ponto B. Desde a década de 70 que alguns antropólogos e outros cientistas sociais se têm debatido com estas e outras questões. Vejam-se por exemplo os trabalhos de Batista Medina (2001, 1998, 1993), Branco (1987), Dias e Galhano (1986), Durand (2003), Fleuret (1985), Gouveia (1996), Guillet (1987), Hernández e Tafalla (1998), Hunt e Hunt (1976), Kelly (1983), Lansing (1987), O´Neill (1984), Palu (1998), Pérez Picazo (s/d), Portela (1996), Reyes Aguilar (1989), Salesse (2003), Strang (2004), Trawick (2001), Wateau (2000, 1998), etc.

No decurso da minha investigação fui confrontada com a ideia (errónea a meu ver) de que as levadas da Madeira são únicas no mundo, de que não existe nada semelhante noutros pontos do mapa mundial. Posso afirmar que o sistema de regadio madeirense – a rede de levadas – em si, é exclusivo dali, devido à dimensão da ilha. Este facto remete-me para um quadro ‘glocal’ da cultura. Deparei-me com evidências que demonstram que o recurso/produto turístico em análise não é exclusivo da ilha da Madeira, e passo a indicar.

À semelhança do que acontece na ilha da Madeira, e não sendo exclusivo daquela região autónoma, existem também noutras paragens, trilhos pedestres ao longo de canais de regadio, com acesso a múltiplas paisagens rurais e de montanha. Seguem-se três exemplos.

1.
O primeiro localiza-se numa região no sul do Tirol, mais precisamente em Merano , situada nos Alpes. Alguns dos canais de irrigação (waalweg) ainda se encontram em funcionamento à semelhança do que acontece na ilha da Madeira. Neste caso, existe um conjunto de trilhos acessíveis a qualquer pessoa, variando os graus de dificuldade, a altitude, e ainda, a distância (entre os 2 km a 13 km de comprimento). Os trilhos são variados , havendo percursos temáticos. A par destes percursos, existem outros, em Val Venosta , na parte sudoeste do Tirol. Também estes se caracterizam pela localização junto a áreas rurais.

2.
Com o segundo exemplo rumamos à Suíça, mais concretamente a Nendaz, um planalto acima do Vale do Ródano, junto a Sion, capital do Valais . Apesar de ser conhecido como um resort de inverno, esta zona é, também, popular pelos 24 trilhos pedestres com cerca de 250 km de extensão que podem ser percorridos nos meses mais quentes, os quais permitirão apreender as paisagens da região bem como as culturas locais.


3.
O terceiro exemplo conduz-nos ao Atlântico, em concreto às ilhas Canárias. Aqui existem inúmeros trilhos pedestres passíveis de serem utilizados pelos caminheiros nas suas experiências. Alguns destes trilhos localizam-se junto a canais de irrigação, outros inserem-se na temática da água.

Para concluir, as levadas da Madeira são, por um lado, exclusivas porque inserem numa extensa rede de regadio situada numa ilha com determinada área. Mas por outro, e em termos de produto turístico, este não é exclusivo, como indiquei.

One thought on “Levadas da Madeira: um recurso/produto exclusivo da ilha da Madeira?

  1. Pingback: Levadas da ilha da Madeira: valor patrimonial | Filipa Fernandes

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