Picos da Madeira

Hoje na edição do jornal Público foi publicada uma reportagem acerca dos Picos da Madeira. Curiosamente estive para lá ir hoje, contudo, e por imperativos pessoais, cancelei o passeio.
Fica aqui o texto na integra para quem estiver interessado:
“Muita gente só tem dois ou três dias na Madeira, apenas fica com tempo para fazer uma vereda ou duas a pé, e eu digo sempre: façam a vereda Pico do Areeiro-Pico Ruivo, se estiver bom tempo.
Já fiz aquilo umas centenas de vezes. Ainda há muito poucos dias estava um tempo fantástico, era um domingo, a minha mulher estava a trabalhar e eu meti-me sozinho no carro, deixei-o no Pico do Areeiro, fui ao Pico Ruivo, voltei, e vim para casa satisfeito. Fui conversando com as pessoas pelo caminho, alguns estrangeiros, e passei um dia fantástico. Já fiz aquilo tantas vezes, mas sou capaz de passar horas e horas lá em cima, sentado numa pedra, a ver as vistas que aquilo tem.
Esta vereda tem umas vistas deslumbrantes, porque andamos sempre no alto.
O Pico do Areeiro tem 1818 metros e o Pico Ruivo tem 1862 metros. A vereda atravessa a cadeia central da ilha, que é a zona mais alta, ligando os dois. Pelo meio, passa pelo Pico das Torres, que tem 1851 metros. Há zonas em que desce aos 1700 metros, porque é ondulante, mas de resto anda na cota dos 1800 metros. Foi arranjada muito recentemente, e agora é acessível para a maioria das pessoas.
Pode ter oito quilómetros ou 12. Se for feita passando por vários túneis, que evitam a subida ao Pico das Torres, tem oito quilómetros. É um percurso mais fácil e em minha opinião até mais bonito, porque de cada vez que se sai de um túnel, encontramos uma nova paisagem completamente diferente, com uma beleza fenomenal. Cada saída de túnel é uma surpresa.
É uma paisagem muito agreste, com vegetação rasteira – urzes, muitos líquenes e musgos, muitos fetos nas rochas, muitas gramíneas, muitas flores silvestres, piornos, estreleiras, sobretudo nos meses de Maio e Junho, em que fica tudo amarelo, e do lilás dos maçarocos, uma flor muito bonita. Em Agosto e Setembro, será mais verde.
A geomorfologia é muito rica, com os filões e os diques basálticos bastante evidentes, devido à erosão. As rochas são muito erosivas, estão constantemente a cair. Aliás, no Inverno torna-se perigoso passar, quando o tempo não é favorável.
Algumas partes da vereda foram calcetadas com pedra, para a tornar mais segura, e toda a vereda é protegida com varandins de aço, porque passamos em abismos de 300, 500, 600 metros, a pique. A vereda é mesmo cortada na rocha e sem esses varandins seria extremamente perigosa. É um percurso que leva umas três, quatro horas, e mesmo com bom tempo as condições podem mudar de repente. As pessoas têm de ir prevenidas com equipamento para o frio e para a chuva, com comida e água, com calçado próprio e com um bastão para ajudar a subir e a descer, porque há uns degraus bastante íngremes. E avisarem sempre que foram fazer a vereda.
Na base do Pico Ruivo, há uma casa de apoio.
Freiras e levadas
Existe uma ave emblemática desta zona, a freira-da-madeira, única no mundo, que está numa situação dramática, porque só existem à volta de 30 a 40 casais.
Uma freira é parecida com uma gaivota mais pequena, ou com uma pardela, e nidifica nesta zona, à saída do Pico do Areeiro, quando se vai para o Pico Ruivo. É uma ave marinha, pelágica, ou seja, que vive no alto-mar, sem terra à vista, e só precisa de vir a terra para nidificar. Mas nem nidifica junto ao mar. Faz os seus ninhos no interior da ilha, nas rochas, dentro de orifícios, de tocas.
A freiras são aves protegidas, e houve uma polémica por causa do radar que vai ser construído nessa zona, e que pode interferir com elas.
Depois, também se vê o tentilhão, que é um pássaro característico da Madeira, o bisbis e as aves de rapina, como o francelho e a águia-de-asa-redonda, conhecida na Madeira como “manta”. Mamíferos não há. Aparecem alguns gatos-bravos, mas são gatos que fugiram das casas. A Madeira, na sua origem, não tem mamíferos terrestres. Os que existem foram trazidos.
Relativamente perto, há a zona do Parque Florestal do Ribeiro Frio, que tem dois percursos.
Um curto, que tem mais ou menos meia hora, acessível a qualquer pessoa, para os “balcões”, um miradouro com umas vistas fantásticas sobre o vale da Fajã da Nogueira.
Em sentido contrário, há o percurso da Levada da Serra, talvez o mais conhecido da ilha em termos de levada, e que liga o Ribeiro Frio ao Santo da Serra. É um percurso sempre chão, sempre plano, que contorna a montanha, e demora mais ou menos quatro horas.
As levadas são canais de água. Desde o início da colonização, houve necessidade de trazer água de onde a havia para as terras de cultura, que não tinham água. Sobretudo, trazer água do norte para o sul.
O norte é muito mais verde, está exposto aos ventos alíseos. Na Madeira, os ventos dominantes são os alíseos norte-sul, e todo o norte é mais montanhoso, mais molhado, recebe muito mais chuva, tem incomparavalmente mais água. Então as grandes levadas são canais que trazem a água do norte para o sul, onde existem muito mais culturas e três quartos da população vive. Foram construídas ao longo dos séculos com esse fim. Nos últimos anos, essas levadas têm sido utilizadas para percursos pedestres, arranjadas e melhoradas. E normalmente são mais ou menos planas, percursos fáceis, só com um pequeno declive para a água deslizar”. (Alexandra Lucas Coelho).
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